SONHAR PARA QUÊ?
As experiências subjetivas vividas todas as
noites ajudam a resolver problemas do dia a dia e até a ver o futuro,
diz o neurobiólogo Sidarta Ribeiro
Iara Biderman
A
civilização atual não sabe mais sonhar, lamenta um dos maiores
especialistas brasileiros no assunto, o neurobiólogo Sidarta Ribeiro,
42.
Segundo ele, os sonhos são ensaios que auxiliam a pessoa a
enfrentar desafios, assim como eram uma garantia de sobrevivência para
nossos ancestrais.
No Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade
Federal do Rio Grande do Norte), dirigido por Ribeiro, essas hipóteses
são testadas com equipamentos, à luz das novas descobertas da biologia,
da física e da neurofisiologia.
Toda essa ciência dura não o
imNOpede de usar áreas mais elásticas do conhecimento. Ele incorpora aos
seus estudos conceitos vindos da psicanálise, de relatos de povos
primitivos e de pesquisas sobre efeitos da ayahuasca (chá do Daime) e da
maconha.
No momento, o pesquisador experimenta uma nova
tecnologia para modificar neurônios em cérebros de ratos com o objetivo
de induzir ao sono e à concentração da memória. Ele acaba de finalizar
um estudo comprovando a precisão de diagnósticos de esquizofrenia e
bipolaridade feitos a partir de relatos de sonhos de pacientes.
A reportagem da Folha conversou com Ribeiro no Rio, durante um seminário sobre sono. Leia trechos.
Folha - Qual é, no fim, a função do sonho?
Sidarta
Ribeiro - Hoje em dia, nenhuma, porque a gente não dá importância para o
sonho. Em culturas tradicionais, era central. O público universitário
não acredita em sonhos, mas, se a pessoa se dispuser a fazer um
"sonhário" [diário de sonhos], vai perceber que eles têm função. O sonho
joga estímulos elétricos em suas memórias e você fica explorando todas
as possibilidades, o que pode ou não acontecer. É mesmo uma capacidade
de ver o futuro.
Folha - O que mais o sonho faz?
O sonho é
sobretudo a articulação de memórias regida pelo circuito de recompensa
do cérebro. Não é reverberar qualquer memória, mas sim aquelas que têm a
ver com procurar o que nos dá prazer e evitar o que é desagradável.
Sonhar serve como um ensaio, uma simulação de expectativas de
recompensas e punições que prepara a pessoa para enfrentar a vida. Um
estudo sobre sonhos de mulheres que se separaram dos maridos mostrou um
padrão entre eles. Primeiro, elas sonham que está tudo bem no casamento;
depois, há uma fase em que sonham que o marido morreu e, por último,
acontece a simulação: nos sonhos, elas ou os maridos estão se
relacionando com outras pessoas.
Folha - A psicanálise ajuda a recuperar essas funções dos sonhos?
Acho
a psicanálise muito útil, mas não dá para fazer análise com uma pessoa
que não tem introspecção. Que "não sonha". A nossa civilização esqueceu
como se sonha. As pessoas precisam reaprender a sonhar.
Folha - Como é esse aprendizado?
É
dar ao sonho um lugar de importância. Se a pessoa vai para a cama e
adormece vendo TV, não está se preparando para a experiência importante,
transcendental mesmo, que é sonhar. E se ela se levanta da cama pulando
e vai fazer outra coisa, não tem como se lembrar do que sonhou. A
pessoa tem que treinar essa lembrança. É preciso também perceber como o
cinema e a TV tomaram o lugar de nossos sonhos. As pessoas sonham
acordadas sonhos que são feitos por outras pessoas, com conteúdos
prontos.
Folha - Mas esses conteúdos também têm a sua função...
Nada
contra, adoro filmes, seriados... O problema é que a gente vive em um
mundo de excesso. Os estímulos hoje são muito mais complexos. Aí seu
sonho é cheio de filigranas, como uma cama com dossel: não tem utilidade
tão real, não vai salvar a sua vida. Só em situações de estresse eles
se tornam mais práticos.
Folha - O que é um sonho prático?3
É
quando ataca um problema concreto. Um estudo que fizemos no Instituto
de Neurociências mostrou que candidatos que sonham com o vestibular têm
notas 30% mais altas do que os outros. Mais interessante: os que
simplesmente sonharam terem passado na prova não foram os melhores, e
sim os que tinham sonhos com as matérias estudadas. Sonho tem que ter
utilidade, como tinha para os homens das cavernas: se ele sonhava com um
tigre no lugar onde costumava beber água, ficava ligado. Mesmo se só
criasse temores subliminares, o sonho aumentava as chances de
sobrevivência.
Folha - Animais também sonham?
Todos os
mamíferos e alguns pássaros têm sono REM, que é a fase em que se sonha
de forma vívida. Só que os pássaros têm centenas dessas fases. Devem ser
sonhozinhos que duram segundos. Os nossos duram 40 minutos.
Folha - E são só quatro por noite?
Eu
tenho uma teoria que, apesar de termos quatro episódios de sono REM,
temos milhares de sonhos, mas testemunhamos só um por vez. Quando
sonhamos, todas as criaturas da mente estão acordadas. É um zoológico:
abre a porta e sai tudinho. O nosso "self" [consciência de si] é só um
dos bichos, para onde ele for será o sonho que estaremos vendo. E são
camadas e camadas interpenetráveis de coisas rolando. Por isso é tão
comum você sonhar que entra em um lugar e, de repente, está em outro.
Folha - Como o senhor define consciente e inconsciente?
Inconsciente
é a soma de todas as memórias que a gente tem e todas as combinações
possíveis. Por isso é tão grande. Consciente é a mínima fração disso que
está ativa no momento.
Folha - E o que é a consciência?
Ninguém
sabe. Não há nem mesmo um acordo sobre o que a palavra quer dizer. A
consciência tem a ver com informações que se espalham no cérebro todo.
Folha - Então não dá para definir o lugar da consciência no cérebro?
Eu
odeio isso, dizer que cada área faz uma coisa: "Meu hipocampo navegou,
meu hipotálamo sentiu". Não temos controle. Isso só serve para livro de
autoajuda e para vender remédio. Mas as pessoas adoram, parece que você
explicou tudo ao mostrar áreas cerebrais coloridas.
Raio-X
Sidarta Ribeiro
Nascimento: 16 de abril de 1971, em Brasília
Formação:
Ciências biológicas (Universidade de Brasília), mestrado em Biofísica
(UFRJ), doutorado em Neurociências e Comportamento Animal (Universidade
Rockefeller, E. U. A.), pós-doutorado em Neurofisiologia (Universidade
Duke, E. U. A.)
Atuação: Diretor do Instituto do Cérebro e professor de Neurociências na UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/111065-sonhar-para-que.shtml


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