Amanhece, em Copacabana, e estamos todos
cansados.
Todos, no mesmo banco de praia.
Todos ,
que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas,
meu pensamento e minha vontade.
As pessoas e as coisas começam a movimentar-se.
A moça feia,
O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca,
o bêbado que vem caminhando com a lapela suja de sangue,
Ônibus de colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono.
As pessoas e as coisas começam a movimentar-se.
O banhista gordo e de pernas brancas
vai ao mar cedinho porque as pessoas de
manhã são poucas e enfrentam sem receio seu aspecto
Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos
Todas as ordens foram traídas, todas as promessas foram desfeitas,
Aqui sentado neste banco de praia eu sou um vegetal!
Estou reduzido aos meus instintos,
Estou preso aos meus sentidos
Pouco a pouco foram reduzindo meu direito à minha humanidade,
Tiraram meu semelhante de junto de mim, limitaram o uso do meu cérebro às
operações mais simples,
arrancaram a minha carta de cidadania,
extinguiram a minha capacidade de influir,
diminuíram o meu cérebro, dissolveram minha consciência.
Agora, eu apenas faço parte da paisagem quase morta,
Sou uma planta encostada aqui neste banco de praia
Quando haverá outro dia esperança, quando?
Já começo a sentir cansaço, depois vem o desgosto, depois o desespero de tudo isto.
Estou reduzido aos meus instintos,
Estou preso aos meus sentidos,
Reduziram o meu direito à minha humanidade
Tiraram meu semelhante de junto de mim,
Arrancaram a minha carta de cidadania,
Dissolveram minha consciência,
Mas, me deixaram estas palavras na minha boca que eu digo a vós.
-“Vem por aqui”, dizem alguns com olhos doces estendendo seus braços e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse quando me dizem: -“Vem por aqui”
eu os olho com olhos lassos,
há nos meus olhos ironias e cansaços e Nunca vou por ali.
A minha glória é esta, criar desumanidades,
não acompanhar ninguém,
que eu vivo com o mesmo sem vontade com quem rasguei o ventre à minha mãe,
Não, Não vou por aí
Só vou, por onde me levam meus próprios passos,
Se o que eu busco saber,
Nenhum de vós me responde
Por que me repetis
- “Vem por aqui”
Prefiro escorregar os becos lamacentos
Redemoinhar os ventos,
Como farrapos arrastar os pés sangrentos a ir por aí.
Se eu vim ao mundo foi só para deflorar florestas virgens ou
Desenhar meus próprios pés na areia inexplorada,
O mais que eu faça não vale nada!
Como pois vós que lhe dareis machados, ferramentas e coragem para derrubar os
meus obstáculos?
Corre nas vossas veias o sangue velho dos avós e
Vós amais o que é fácil!
Eu amo longe a miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos,
Ides, tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátrias,
Tendes tetos e tendes regras e tratados e filósofos e sábios,
Eu tenho a minha loucura,
Levanto-a como um facho,
Arder na noite escura, e sinto espuma e sangue, cânticos nos lábios:
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas, eu que não principio e nem acabo nasci do amor que há entre Deus e o Diabo
Ah! Que ninguém me dê piedosas intenções
Não me peçam definições
Ninguém me diga: - “Vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se levantou,
É um átomo a mais que se animou.
- “Não sei por onde vou,
Não sei pra onde vou
Sei que não vou por aí”.
Poema de Antonio Maria, extraído do show: “Brasileiro, profissão esperança”
Me tire deste quarto de hotel
E de todas as coisas que entram pela janela,
Me leve para longe das palmeiras,
Mais longe perto das coisas macias,
Me faça esquecer depressa dos homens ruins, isto é os que comem cebolas cruas,
Me ensine tudo o que eu não aprendi:
Cortar com a mão direita, usar anel, tocar piano,
Desenhar uma árvore, valsar
E me lembre tudo o que eu esqueci: raiz quadrada,frações, latim,
Navios Negreiros de Castro Alves,
Depois me dê pelo bem dos seus filhinhos aquilo que eu não tenho há quase um ano – carinho
De um jeito que eu não sei dizer como é mas há por aí ou pelo menos já houve,
Destelhe a casa, deixe a noite entrar e juntos vamos nos resfriar
Espelho de lá
Espelho de cá
Minhas mãos e as suas não são de ninguém,entendido!
Se interesse por mim, pergunte o que eu sei
Que eu vou exclamar no mais puro francês:
Comment allez-vous?
Repare o relógio que anda depressa, partamos,de um jeito ou de outro, me tire daqui,
Para a Pérsia, Sibéria, para o club da chave,
para Marte, Inglaterra, mas sem couvert.
Está vendo o retrato dos meus 20 anos, de lá para cá, cansaço, pé chato,gordura, fizeram de mim esta coisa ansiosa e insegura e com sono que pede a você no auge do manso: - “não saia esta noite e fique ao meu lado
esperando que o sono me tome, me mate, me salve, me leve por amor ao
seu andar. Assim seja.”

